Ele se foi. O tio Zezinho morreu. De certa forma o mundo e em especial a cidade de Três Pontas, Minas Gerais perdeu um dos seus filhos mais importantes. Não era uma celebridade, nem pertencia à oligarquia ou burguesia ou mesmo os conservadores da cidade. Era um homem popular e simples, de uma religiosidade muito acentuada. Era devoto de Nossa Senhora Aparecida e o Padre Vítor, patrono e protetor da família mineira, em especial, da cidade de Três Pontas. Um dos seus maiores orgulhos, de homem, pai cristão e católico fervoroso, era o seu filho Roberto, ou melhor, o padre Roberto, pároco da Igreja Nossa Senhora D’Ajuda, a matriz da cidade.
O tio Zézinho ou José Targino como era conhecido na cidade, era carpinteiro, não desses carpinteiros comuns, era um mestre da madeira. Sua especialidade eram móveis maciços de madeira nobre. Amava e sentia orgulho no que fazia e o fazia muito bem, era reconhecido e muito procurado. Fazia questão de escolher as árvores na mata, acompanhar o corte, trabalhar a madeira bruta desde o seu primeiro estágio. Diga-se de passagem, ofício esse que passou para dois de seus filhos que o acompanhavam profissionalmente dividindo a mesma marcenaria e dessa arte alimentavam suas famílias.
José Targino como era conhecido o meu querido tio. Eu tinha para com ele uma grande admiração, principalmente da sua calma, notada em cima do sotaque de mineiro nato. Tinha certa dificuldade na pronuncia, era parcialmente gago, o que quer dizer que a dificuldade somente se fazia notar no início de cada frase, principalmente quando o assunto era de cunho político ou familiar.
Ele me chamava de joão, e dizia: - João, meeeeeee conta como está São Paulo. Faaaaaala como estão todos em sua casa. Aaaaaa comadre e ooooo compadre estão beeem bem de saúde.
Assim era o tio que Deus levou para cuidar dos pássaros do seu quintal, pois que nisto ele era mestre. Seu robe era cuidar de seus passarinhos com os quais falava toda manhã e pode parecer incrível, eles o entendiam, tanto que fazia parte da sua rotina andar pelas matas em busca do cantar de pássaros. Uma boa pescaria também fazia parte do seu gostar.
Um grande contador de histórias era o meu tio, e eu me deliciava com as mesmas, por mais corriqueiras e banais que fossem por mais longas e difíceis de entender que fossem. Talvez a sua maneira de contar, ele as vivia e entre um gaguejar e outro o meu tio falava de fatos acontecidos, de personagens pitorescos dos quais ele sempre era um deles. Ouvir as narrativas do meu tio era também integrar o rol de seus personagens, vivenciar suas aventuras correndo todos os riscos.
Me ocorreu uma história dessas bem bizarra:
Estava o meu tio em uma pescaria na espera, um distrito da cidade de Três Pontas, sul das Minas Gerais, o pesqueiro se chamava rio verde, rio muito caudaloso, de águas muito verdes e limpas, abundante de variedade de peixes. Pena que este formoso rio já não existe mais, tomado que foi pelas águas da represa de furnas que também levou consigo boa parte das matas ali existentes.
Pois bem, estava meu tio à beira do rio lá pela madrugada dentro, quando ouviu um som estranho bem próximo de si. Era algo parecido com uma música que, estranhamente lhe soava familiar. Fã incondicional do Nelson Gonçalves, sabia quase todas suas músicas e o que ele ouvia era uma delas: “- Maria Helena es tu, a minha inspiração”, e novamente se repetia: “- Maria Helena es tu, a minha inspiração”. Depois de repetidas vezes, o som parou por mais ou menos uma hora e novamente se ouviu: “- Maria Helena es tu, a minha inspiração”.
Curioso e invocado com aquele som estranho num local daqueles, o pescador muniu-se de um farolete e deu inicio a sua busca, embrenhou-se mato adentro, sempre em direção de onde lhe parecia vir o som. Retornou depois de duas horas sem lograr êxito em sua busca. Visitou duas varas de espera que estavam estrategicamente presas à beira do rio, retirou de uma deles uma boa traíra, iscou novamente, lançando o anzol para a água, pegou a sua vara da sorte, assim ele chama a sua melhor vara de pesca, caprichosamente cuidada por ele, lançou também o anzol na água, lançou mão da garrafa térmica, serviu-se de café e voltou seu pensamento à pescaria, sem contudo deixar de pensar na música estranha. O som agora se ouvia bem baixinho, parecia estar bem longe, muito longe.
De manhã, lá pelas seis horas, recolheu sua tralha de pesca, conferiu sua produção. Pareceu-lhe boa uma vez que havia conseguido pescar uma meia dúzia de mandis chorões, três traíras, dez ou mais lambaris de bom tamanho, e um pacú de uns três quilos, fatura muito boa para um só pescador.
De volta a sua casa, contou a sua esposa, a tia Lourdes, o estranho caso acontecido na pescaria, ao que ela respondeu:
-“ Ora Zé, isso é coisa da sua cabeça, onde já se viu ouvir música no meio do mato e de madrugada. Isso ou é coisa da sua cabeça ou é assombração. Dizem que no século passado, ali existia uma pensão para pescadores de São Paulo, ali também existia um bar e um bordel. Vai lá saber quantas pessoas morreram por aqueles lados cujas almas vagam a procura de paz. Acho melhor você escolher outro lugar para sua pescaria”.
Assim sentenciou a minha tia do alto da sua sabedoria. Ela era uma pessoa muito comedida, religiosa. Apesar de pouca cultura, lia muito e conservava traços de uma criação muito severa, com regras ditadas pelo seu pai, meu avo, que era um homem muito conservador e gostava muito de, no ato de suas instruções aos filhos, ilustrá-las com velhos ditados populares e histórias nebulosas de fantasmas, almas do outro mundo, maldições, etc, etc.
Bem, retornando ao meu tio, cuja pescaria de quinze dias atrás o tinha marcado, não conseguia tirar da cabeça aquela música do Nelson e mesmo não acreditando em fantasmas achava que algo muito estranho tinha acontecido, e para o seu sossego, deveria tirar a limpo, e isso iria acontecer naquela sexta-feira.
Chegou o dia e tio Jezinho armou-se de sua tralha de pescaria e de muita coragem e seguiu em direção à Espera. Era por volta das 23:00 horas quando chegou ao local predileto de sua pesca, preparou suas varas, iscou-as e ficou a espera, não dos peixes mas da estranha música que não lhe saía da cabeça. Meia noite e nada. Não podia ser coisa do outro mundo, alma penada ou coisa que o valha, pois isso só se manifesta à meia noite, assim pensava ele.
Lá pela uma hora da manhã, começou a ventar e lá veio a tal música. De imediato, lançou mão do farolete e correu em direção ao som, este estava muito alto, tanto que a sua direção podia ser apontada facilmente. Estancou de repente em frente a uma moita de Juá, e ali estava o motivo de seus pesadelos, ali estava o seu fantasma particular, sua alma penada. Enfim, ali estava o Nelson Gonçalves cantando. Preso em um dos galhos da moita do espinheiro, metade de um velho disco de vinil, disposto de tal maneira que ao sabor do vento, um outro galho da planta passava por sobre o disco, reproduzindo a tal de “- Maria Helena es tu, a minha inspiração”.
Pois é amigo, esta é uma das histórias que rotineiramente ouvia do meu querido e finado tio Jezinho. Quanta saudade!
Marinez
Ter 02 Set 2008 00:41